Mulher é tudo de bom – já ouvi isso. Mas, afinal, que raios é tudo de bom?

Acordar cedo para preparar o café, lavar a louça do café, deixar a comida do almoço pronta, ir para o trabalho, voltar e verificar que a louça ainda continua dentro da pia. Deixar a pasta e a bolsa de griffe no quarto, os scarpin de saltos altos que deixavam seu corpo alongado, voltar com um short curtérrimo e uma havaiana descolada, varrer tudo, tirar o pó, e depois de lavar a louça, e depois de tudo, abrir a geladeira para preparar o jantar, porque a última empregada mensalista teve que mandar embora por contenção de despesas.

Mas, claro que a janta tem que ser corrida porque não dá para perder a novela, muito menos hoje, em que vão desmascarar a bruxa e fazer com que o par romântico fique ainda mais unido e feliz. A seguir,  tem reality que dá para entreter e ainda dar sonoras risadas, para logo a seguir ir para o Face ou comentar no Whatsapp com meia dúzia de amigas que o Tiago estava um gato, que ele substituiu o Pedro à altura. Embora, não literalmente, pois todo mundo sabe que o Pedro é bem alto.

O sorriso vai aos poucos se fechando num esgar totalmente desprovido de graça, quando adentra novamente a cozinha que, agora, está parecendo campo de manifestantes dos panelaços. Todas as panelas estão estrategicamente espalhadas e a pia ainda mais abarrotada. E lá vai ela, guardar, secar, até que seus olhos passem pelo relógio do microondas e, de novo, constata abismada que já passa da meia-noite e tem que correr para a cama, pois amanhã é dia de reunião e não dá para atrasar.

Vai para o quarto em busca da camisola, afinal, hoje é dia da mulher, e seu marido trouxe de presente uma rosa cor de maravilha – maravilhosa. Ela rapidamente imagina liberar uma dancinha à estilo ‘Luz del Fuego’ para ele e com a rosa nos dentes, mas percebe que ele já engatilhou o primeiro ronco.

Entra no banheiro, primeiro para esfriar os ânimos, depois toma banho e coloca a camisola e dá a última escovada nos dentes e depois nas madeixas e dirige-se para o quarto, envolvida em todas as suas preocupações, levar o menor ao pediatra, comprar o abridor de apetite para o mais velho, comprar um tênis para o mais novo, e uma pasta de couro para o maridão substituir a que leva para o trabalho, já tão surrada e sem sal. E é ela que pensa em tudo, mais uma vez, verificando todas as trancas das portas às janelas, e desligando as luzes. Volta para a cozinha e separa o saco de lixo para colocar na lixeira logo pela manhã.

Vai até a sala e desliga o aparelho de TV, ao passar para o seu quarto nota que no quarto dos meninos, uma movimentação informa que o menorzinho ainda não dormiu. Então, volta e se encaminha até a estante em busca daquele estratégico livro de história, aquele que já leu umas setecentas e vinte vezes para o mais velho, e está pronta a repetir com o mais novo, só que Graças a Deus ele dorme assim que ela profere a sentença mágica…’Era uma vez…’

Lembra que tem que rezar, principalmente para agradecer, pelo dia fantástico, pela saúde de todos, inclusive a sua. E pensem que ela está cansada? Qual o quê. Afinal, todos estão bem, dormindo, com saúde, e felizes. A esse pensamento sente-se ainda mais energizada e com cara de que tem energia de sobra para fazer tudo outra vez.

Sente-se feliz também. Aquela é a sua família. E seu peito se enche de orgulho, e quando vai para a cama, começa a fechar os olhos sabendo que no dia seguinte tem mais. Mesmo que não haja nenhuma homenagem. Mesmo que nem lembrem que existe mulher no mundo, mesmo sem saber que ela (e cada uma de todas as outras) é na verdade tudo de bom deste mundo, porque é o AMOR em ação.

Aí é que alguns flashes surgem sobre a homenagem que todas as  mulheres receberam da empresa, um e-mail com uma flor e uma frase de efeito, quando ouviu um colega comentar que mulher é tudo de bom. Ela nem tem consciência de que é realmente, já dorme sem sequer registrar.

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